segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Não índios ameaçam reserva Apurinã

*Elson Martins

Aldeias Apurinã de Boca do Acre, no vizinho Estado do Amazonas, mesmo demarcadas pela Funai estão sendo invadidas por fazendeiros e madeireiros da região. Na reserva do Km 45 da BR-317, de 32 mil hectares, onde vivem 19 famílias com 200 pessoas, a derrubada da floresta para vender madeira e abrir pastos para o gado virou rotina, e conta com a cumplicidade crescente de indígenas. A estratégia dos invasores é casar com mulheres indígenas e passar a morar na aldeia introduzindo novos hábitos e preferencias culturais. Na margem esquerda do Rio Acre, no fundo da reserva, os madeireiros avançam ameaçando destruir os “barreiros” de caça. O Estatuto do Índio vem sendo descumprido o tempo todo, mas a Funai não liga!

Quem faz a denúncia é Manuel Apurinã, de 67 anos, uma velha liderança do Km 45 (BR-317) que veio a Rio Branco com a mulher, Raimunda Cruz, a tratamento de saúde, mas também procura por alguma autoridade que possa ajudar a salvar seu povo. O casal tem 11 filhos e 50 netos, e sobrevive a uma longa história de luta contra os não índios. Nos anos 70 sofreu ataques violentos do grileiro João Sorbile, o ”cabeça branca”, que com a ajuda de policiais e jagunços vindos de Manaus queimou seu barraco, fuzilou animais de criação e obrigou a família a fugir pela mata com os filhos pequenos, doentes de sarampo.

Manoel Apurinã e Raimunda Cruz temem pela perda da identidade indígena na Reserva Apurinã – Fotos: Elson Martins

Grilagem e esperteza


A agonia dos apurinã da BR-317 começou em 1972, quando o aventureiro Sorbile chegou a região dizendo ter comprado parte do seringal Aripuanã tradicionalmente ocupado pelos indígenas. Com a ajuda do cartório e da Prefeitura de Boca do Acre, o grileiro esticou 5 mil ha que dizia ter comprado, até 300 mil ha, invadindo terras indígenas do Km 45. Ele formou um latifúndio que retalhou em pequenas parcelas e vendeu a pequenos colonos do leste e do sul do país. Quando estes chegaram, com suas famílias, trataram de ocupar a terra entrando em conflito com os apurinã.

Na época, o lider José Miranda Apurinã explicou como o grileiro Sorbile agia:


“Ele chegou por estas terras com três mudas de roupa, 60 mil cruzeiros (cerca de 6 mil reais hoje) e uma camionete C-10 emprestada ou roubada. Só sei que o dono veio buscar o veículo. Ele chegou prometendo construir 40 casas com assoalho de tabuas, cobertas de zinco, tudo feito carreirinha como na cidade pra nós morar. Daí ele foi agradando o pessoal com um quilinho de açúcar, um pouco de café…acabou construindo a casa dele do lado. Então começou a abrir caminho para dentro da mata e cresceu o bicho lá, querendo ser dono de tudo” (declaração feita ao jornal Varadouro, edição de dezembro de 1981).

Na outra ponta, um dos colonos recém-chegados do Paraná, Plinio Bertoldo, já contrariado com o que viu, declarou: “Eu já vi essa estrada de Boca do Acre a Rio Branco asfaltada (na verdade não tinha asfalto, mas muita lama), em fotografia, na cidade de Cascavel onde eu morava. Nós viemos do Paraná por causa da propaganda que faziam lá e por incentivo do governo. Nós tínhamos 6 alqueires, aqui temos 150. Compramos essa terra do Danilo Nogueira Farias, sócio do João Sorbile (Varadouro)”.

Na medida em que os colonos como Bertoldo iam chegando, os apurinã eram forçados a abandonar o local onde viviam para ceder aos recém-chegados. Quando tentavam resistir, como Manoel e José Miranda, eram reprimidos com violência por “cabeça branca” e seus jagunços. Numa nova manobra, Sorbile desmanchou as 40 casas e ofereceu 10 alqueires para cada um dos indígenas, que não aceitaram a proposta.

A partir daí, Sorbile apostou na briga entre colonos e indígenas jogando uns contra os outros, ao mesmo tempo em que intensificava a violência contra os verdadeiros donos da terra. Foi aí que estes se juntaram e decidiram agir com base no Estatuto do Índio. E como o Estado do Amazonas representava ameaça, eles procuraram e encontraram apoio nos antropólogos, na imprensa, no governo e na sociedade do vizinho Acre que, na época, começava a discutir a União dos Povos da Floresta, eliminando antigas desavenças entre extrativistas brancos e indígenas.

Sorbile, que no fim dos anos 1970 tinha construído uma serraria dentro da reserva do Km 45, teve sua estrutura sequestrada pela Polícia Federal e acabou “capando o gato” de volta para suas origens, naturalmente, com bastante dinheiro em sua conta bancária. No Acre, a galera da resistência montou a peça “A grilagem do cabeça” no Teatro de Arena do Sesc e saiu exibindo o trabalho pelos bairros, parece que até fora do Estado. “Cabeça Branca” foi o apelido que os apurinã colocaram em Sorbile porque ele tinha cabelos e barba brancos, parecendo um albino.

Infelizmente, “o tempo dos direitos” que beneficiou a maioria dos grupos indígenas do Acre não chegou de forma completa aos apurinã. Eles tiveram suas terras demarcadas, receberam apoio para a produção, saúde e educação, mas a autonomia indígena continuou ameaçada, como advertem Manoel e Raimunda. Nem os não índios extrativistas da região de Boca o Acre estão livres das armadilhas montadas por fazendeiros e madeireiros em conluio com o poder local.
E agora?

Num documento que apresentou à C.R.Alto Purus – Funai, cujo recebimento aparece carimbado com data de 30 de abril de 2014, Manuel Apurinã afirma em português claro: “Estamos enfrentando sérios problemas com os brancos vindos de outros lugares e de assentamentos do Incra para se alojar dentro da nossa terra”.

Manuel envia denuncias à Funai desde 2012, mas nenhuma providência aparece. Num documento de 18 de Março daquele ano ele afirma: “Aqui tem uma família (indígena) que já vendeu terra duas vezes, e quem compra cria gado de fazendeiro dentro da reserva. O nome do comprador é Francisco Souza de Amorim”. Num outro documento, de 18 de Junho, cinco signatários indígenas denunciam que “Francisco está trazendo a família dele para dentro da terra indígena” ; e o acusam de estar “arrendando nossa terra para fazendeiros da região”.

Em documento mais recente, Manuel Apurinã esclarece que parceleiros do Incra vendem seu lote no assentamento e se introduzem na aldeia levando maus procedimentos para seu povo. Tem exemplos de drogado e até criminoso na terra indígena.

Boca do Acre possui quatro reservas Apurinã , três das quais ficam próximas à BR-317: a comunidade do Km 124, a do Km 137, e a do Km 45. Na parte do fundo elas fazem limite com o Rio Acre.

Colega de classe


Na época do conflito entre fazendeiros e apurinã acompanhei algumas vezes o representante da Funai no Acre, Porfirio de Carvalho, em visitas à Boca do Acre, e por orientação dele eu me hospedava no hotel Rosa do Acre com o nome de Orlando Villas-Boas, para não levantar suspeitas. Numa dessas vezes, alertado por um fazendeiro vereador (Adão Nunes), o juiz Francisco de Lima Neto mandou me prender por estar fotografando pelas ruas da cidade. Dois policiais me levaram até uma delegacia e arrancaram o filme que registrava cenas para ilustrar matéria que eu encaminharia para o jornal O Estado de S. Paulo, do qual era correspondente. Depois me levaram para uma sala próxima a do juiz, com um policial na porta. Só fui libertado no fim da tarde, após avisar que tinha sido colega de classe do magistrado.

Bom, o juiz tinha sido meu colega de classe no Colégio Acreano, nos anos cinquenta, e me pediu mil desculpas pelo constrangimento. Fez questão que eu o acompanhasse até sua casa e me ofereceu almoço (quase janta), mostrando álbuns da família, após o que providenciou transporte para me levar de volta a Rio Branco. Infelizmente, não pude evitar que o colega aparecesse na matéria sobre o conflito de Boca do Acre como suspeito de ajudar fazendeiros e grileiros a infernizar a vida de indígenas e posseiros.

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