segunda-feira, 11 de maio de 2015

Cresce uma voz na floresta

* Elson Martins

O acreano Alexandre da Silva Maciel em Brasilia, representando a Reserva Extrativista Chico Mendes  (Foto: Acervo do Festival da Juventude Rural)



Quem o viu discursando no Pavilhão do Parque das Cidades, em Brasilia, para mais de uma centena de jovens, com voz firme, do alto de quase 1,90 metro de altura, magro, enroscado numa bandeira e usando óculos fundo de garrafa com mais de 10 graus em cada lente,- poderia pensar que se tratava de algum militante europeu protestando contra o racismo e a violência do capitalismo global no continente. Mas Alexandre da Silva Maciel, 23 anos, nascido no seringal Amapá em Brasileia, morador da colocação Itararé na Reserva Extrativista Chico Mendes estava longe disso.

Na verdade, ele participava do 3º Festival da Juventude Rural (27 a 30 de Abril) e representava os jovens da Resex CM que engloba áreas de sete municípios acreanos somando cerca de 1 milhão de hectares, abrigando mais de 10 mil moradores. O tema de sua intervenção era “Juventude Rural, Participação Social e Organização Sindical”. Conhecido por Xandão, por causa do seu tamanho, Alexandre é um jovem da floresta “feito de boa massa”, como diria um cacique Galibi que conheci no Oiapoque (AP): é inteligente, educado, tem amor à sua terra e ao seu povo, além de pertencer a uma família de bravos. O avô, Gerônimo Maciel, era delegado sindical e participou de “empates” contra o desmatamento (nos anos 1970/980) na companhia de Chico Mendes. O pai, Anacleto Maciel Moreira de Souza, é militante rural desde os 10 anos de idade e se tornou poeta revolucionário.

Xandão sabe de cor os poemas do pai e faz questão de recitá-los. Um deles é “Natureza Humana”:
“A vida humana é importante
Respira o ar puro
Embora esteja no escuro
Embrenhada nos matagais
Junto com os animais
Que percorrem a natureza

Falo com toda certeza
Que nós somos iguais
Porque temos a vida humana,
Os animais e os vegetais”

Como o pai, foi seringueiro, mas num tempo que o Acre já passava por transformações diversificando as atividades econômicas. A colocação em que vive possui oito “estradas de seringa” somando cerca de 800 hectares da floresta acreana, uma riqueza que Xandão percebe como poucos de sua idade. Solteiro, morando com os pais – Anacleto e Francisca Dias da Silva – ele desenvolve muitas tarefas diárias. Colhe castanha, planta arroz, feijão, milho, batata, cana de açúcar; cria galinha caipira e mantem oito cabeças de gado leiteiro; vende produtos na cidade e já calculou que a renda é maior que a obtida com a produção de borracha. Mas as oito “estradas” ainda representam um valor de reserva.

Como militante sindical Xandão não deixa por menos. Aos 21 anos já integrava a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia frequentando eventos importantes. Em 2012 participou do 3o. Congresso Nacional do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (antigo Conselho Nacional dos Seringueiros) no Estado do Amapá. Em 2013 foi ao Congresso do Ministério do Desenvolvimento Agrário em Brasilia, e do 41. Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Agora em 2015 foi ao Festival da Juventude Rural e participou da “Marcha das Margaridas”.

Xandão faz parte também do Coletivo Quilombo como um dos coordenadores do Movimento Extrativista do Coletivo.
"Mais pela dor, que pelo amor" - O jovem trabalhador e militante rural afirma convicto que seu projeto de vida é a Reserva Extrativista. Mas considera que isso é um sonho ainda distante da realidade. Lamenta que os poderes (as Resex são administradas no país pelo ICMBio – Instituto Chico Mendes da Biodiversidade) ainda não tenham definido alternativas adequadas de sobrevivência na floresta. Os jovens, sobretudo, migram cedo para a cidade, e os que permanecem na Reserva se mostram apáticos, desinteressados nas discussões. Tantos os homens como as mulheres só se movem quando se sentem de alguma forma ameaçados.

Xandão concluiu o segundo grau na Resex, mas faz criticas às regras da educação aplicada na floresta. Existem dois programas – Asas da Florestania e Educação para Jovens e Adultos – que dificultam a formação de turmas (de 10 alunos cada) por exigências de idade. Também faltam politicas públicas que ofereçam alternativas concretas de vida. Ele sugere a adoção de pesquisas como a de plantas medicinais. E se manifesta contra os projetos madeireiros, mesmo manejados, porque entende que a floresta não se renova fácil.

Atualmente, Alexandre pensa em organizar um evento para discutir maneiras de manter os jovens na Reserva. Acredita que eles ficariam se lhes fosse oferecido perspectivas de uma vida melhor em curto ou médio prazo. Segundo ele, a maioria dos jovens desconhece o que os poderes planejam para a vida deles. Por isso só participam de reuniões “quando querem ganhar” ou “não deixar levar”. 

Em tempo: na foto principal, em Brasilia, Alexandre aparece no Pavilhão das Cidades envolvido com a Bandeira do Acre. E assume ares de uma figura messiânica, mas disposta a empreender o diálogo entre tradição e modernidade.

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