domingo, 1 de março de 2015

Quem avisa, amigo é!

* Elson Martins

Pela primeira vez na história de Xapuri, as águas do Rio Acre invadiram a Igreja (Foto: Kenny Roger/arquivo pessoal)

Comece a se instruir sobre o produto vital chamado água, do contrário, vai ter que aprender a conviver com miragens. O momento é propício, pois estamos em pleno inverno amazônico testemunhando alagações jamais vistas na região. Tá vendo Xapuri? Quem diria que as águas do pacato Rio Acre subiriam até 18 metros, chegando a inundar a estátua do santo Sebastião na praça do comércio e alcançar o altar da igreja, muito mais acima?

A doutora em engenharia ambiental (também bióloga e, nas horas vagas, hidróloga e meteorologista) Vera Reis, professora da Uninorte e técnica da Secretaria do Meio Ambiente, me disse quarta-feira passada (25) que tudo pode acontecer daqui para frente por conta da “variabilidade climática”. Ou seja, no que diz respeito ao clima, o mundo está virado de ponta-cabeça.

Aqui, estamos vendo o nível dos rios subir, o governo socorrer os desabrigados, muita gente perder tudo que tem, alguns pilantras rezando por mais chuvas e trovoadas só pra aparecer… Mas isso tudo é “tiquim”, se comparado com o que vem ocorrendo em outras partes do mundo. Aliás, o xerife do planeta, Estados Unidos, já tem previsão (punição) anunciada: a partir do ano 2050 vai entrar numa mega-seca milenar; e a Califórnia, do “exterminador do futuro” Arnold Shwarzenegger, será um dos estados atingidos.

Convém recapitular: a maior parte da água do nosso planeta (97%) está nos oceanos e é salgada; uma pequena quantidade (2%) fica nas geleiras, com acesso caro e difícil; um mínimo (1%) serve para consumo humano. Da água potável superficial disponível, a porcentagem maior (80%) está nas regiões menos habitadas, como na Amazônia; enquanto a menor fica em regiões mais habitadas onde as pessoas sofrem com seca e racionamento. Na verdade, 96% clamam por mais água.

Veja só o quanto o produto água é vital: O ser humano pode passar 50 dias sem comer, mas não consegue passar 5 dias sem água.

Durante a reunião da SBPC em Rio Branco, em junho do ano passado, juntei uns livrinhos preciosos sobre mudanças climáticas, escritos por gente inteligente que vive debruçada sobre o assunto. Um deles, o TOMO I do GEEA (Grupo de Estudos Estratégicos da Amazônia), apesar da capa austera, tem informações convincentes (algumas assustadoras) sobre as mudanças do clima no planeta, notadamente, no planeta Amazônia. Vários pesquisadores assinam textos, entre eles Philip M. Fearnside, um norte americano que vive há mais de 40 anos em Manaus como pesquisador do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), contribuindo para o conhecimento do ambiente. Dele reproduzo este trecho:

“O efeito estufa é uma ameaça séria para o mundo inteiro, e o Brasil, inclusive a Amazônia, é um dos lugares onde espera-se que os impactos sejam mais severos se a emissão de gases de efeito estufa continuar incontrolada. É então necessário reduzir a emissão global de todas as fontes, independentemente se elas contam como “emissões diretamente induzidas pelo ser humano”. Isso é responsabilidade de qualquer país em particular.

Segundo Fearnside, “simulações indicam que um ponto crítico seria alcançado se mais de 40% da floresta original fosse derrubada, o que conduziria ao avanço da degradação no resto da floresta”. Mais a frente ele esclarece: “Cada árvore que cai aumenta ligeiramente a probabilidade de que serão iniciados ciclos viciosos (retroalimentações) irreversíveis que destroem a floresta restante.” Finalmente, adverte: “Este é um risco que o Brasil e o mundo não podem correr”.

A bióloga Vera Reis chamou a atenção, na conversa que mantivemos na quarta-feira, para a necessidade de todo mundo plantar arvores, pelo menos uma por dia, a começar pelo quintal de casa. Ensinou que cada árvore grande da Amazônia lança mil litros de água por dia na atmosfera, em forma de gases, possibilitando a formação de novas chuvas.

Quer dizer: floresta, água e clima estão juntos, constituem um sistema integrado que realimenta o mundo natural do qual não podemos prescindir, se quisermos manter uma vida saudável.


ÁGUA: o Brasil a descobre** 

Lúcio Flávio Pinto

O suprimento de água potável no Brasil é uma calamidade pública. Talvez o impacto atual, especialmente em São Paulo, consiga mudar esse panorama. A conta do descalabro será cobrada de qualquer maneira e agora os maus administradores públicos já não contarão com o alheamento (em alguns casos, ignorância) da sociedade.

Gestão de água deverá ser a nova qualificação profissional requerida pelo mercado. Não uma gestão fracionada, esgotada em cada especialidade. Uma gestão multidisciplinar. A sociedade precisa estar bem informada (e formada) para não deixar mais que um assunto de tal gravidade seja conduzido apenas pelo governo. O chamado controle social é indispensável. Na Amazônia, que abriga a maior bacia hidrográfica do planeta, essa deve ser uma função de Estado.

Não são apenas os rios voadores que migram do norte para o sul: é também a energia, extraída dos cursos d’agua e conduzida por longas e caras linhas de transmissão. A Amazônia tem sido apenas a base física desse processo. As decisões sobre onde, como e para quem destinar essa energia são tomadas fora da região e ignorando-a. Aos nativos cabe apenas as rusgas da resistência, exercidas através de manifestações de protesto que paralisam ocasionalmente as obras e retardam o seu cronograma físico e financeiro. Mas não as inviabilizam. Nem, eventualmente, modificam seu perfil.

A Amazônia é província colonial para todos os usos da água. Mas não inevitavelmente tem que ser assim. Essa função é uma exigência de entidades mais poderosas, dentro e fora do país, que precisam de muita energia para sua produção. Tal premissa elide qualquer consideração que ameace essa demanda. Mas a posição amazônica podia estar melhor exercida se pudesse se consolidar com os conhecimentos e as informações adequadas.


** Trecho extraído de um texto maior publicado no Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto, edição n. 578, primeira quinzena de Fevereiro de 2015.

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