sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Marina: o Acre na cabeça!


* Elson Martins



A seringueira Marina Silva, a caminho
de um "empate" (Foto: Tião Fonseca)
Acabo de ler na UOL que Antônio Campos, irmão do candidato Eduardo Campos (PSB) à Presidência da República, falecido na manhã de quarta-feira num desastre aéreo, em S. Paulo, apoia a indicação de Marina Silva (a vice) para substituir Campos na cabeça de chapa. Devo admitir que a noticia calou bem no meu coração ideológico, de esquerda, acreano e amazônico.

Estava propenso a votar na Dilma, do PT, mas se o nome de Marina for confirmado, vou alterar a escolha, para ser coerente com os sentimentos que moldam minha vida. Entendo que Marina terá mais compromisso com o Acre e com a Amazônia que a Dilma, porque é filha de seringueiro; porque abriu caminho numa vida sofrida na floresta; porque é iluminada e sabe enxergar com o coração as necessidades fundamentais dos povos da Amazônia.

Pessoalmente, até que tenho queixa contra ela. Acho que nunca deu muita importância ao jornalismo que pratico no Acre há meio século, supostamente, porque não fiz parte (sou mais velho) do iluminado grupo de História da Universidade Federal do Acre que ela liderou e arrastou para os movimentos socioambentais e para a politica, com brilho. Ou porque nunca aprendi a rezar.  Ou, ainda, porque escrevi um texto discordando do projeto de florestas públicas que ela aprovou quando ministra do Meio Ambiente no governo Lula.

“Mas o negócio não é bem eu...” 

Lembrei da música “Minha História”, do compositor e cantor João do Vale. Analfabeto, nascido no pequeno município de Pedreira, no Maranhão, aos 16 anos migrou para o Rio de Janeiro e foi trabalhar na construção civil. Na época já compunha baião, tão bem, que um deles caiu nas mãos da famosa Dalva de Oliveira que o gravou. Seus amigos de profissão riam quando dizia: “Olha, essa música que a Dalva está cantando no rádio é minha”!

Quem ia acreditar naquele negrinho bobo dos anos cinquenta? Só mais tarde, em plena ditadura militar, levaram pro palco o autor de  “Carcará”, “Pisa na Fulô”, “Carolina”... E de “Minha História”, esta gravada por Chico Buarque de Holanda:

Seu moço, quer saber, eu vou cantar num baião
Minha história pro senhor, seu moço, preste atenção

Eu vendia pirulito, arroz doce, mungunzá
Enquanto eu ia vender doce, meus colegas iam estudar
A minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar

E quando era de noitinha, a meninada ia brincar
Vixe, como eu tinha inveja, de ver o Zezinho contar:


-O professor raiou comigo, porque eu não quis estudar

Hoje todos são "doutô", eu continuo joão ninguém 

Mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vintém
Ver meus amigos "doutô", basta pra me sentir bem

Mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho que eu fiz,
Ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis
E dizem: - João foi meu colega, como eu me sinto feliz

Mas o negócio não é bem eu, é Mané, Pedro e Romão,
Que também são meus colegas  e continuam no sertão
Não puderam estudar, e nem sabem fazer baião


Embarco nessa sabedoria. Não vou escolher Marina para o meu próprio bem; eu a escolho pelo bem dos acreanos de um modo geral, sobretudo, dos que ainda não puderam estudar e “não sabem fazer baião”. Quero o bem dos extrativistas, dos indígenas, dos agricultores  mal assistidos... Quero o bem dos ribeirinhos, das famílias que foram expulsas de suas colocações na floresta, num passado recente (décadas de setenta e oitenta), e tiveram que migrar para as cidades acreanas onde vivem ainda desarrumadas, dependendo de mais investimento estadual e federal para melhorar de vida.

Reconheço que o Acre avançou muito nos governos do PT e da Frente Popular,  e que Lula e Dilma fazem bem ao estado e ao Brasil. Mas, no cenário politico atual, vejo Marina próxima da ideia de sustentabilidade, mais que os demais candidatos à Presidência. Também me anima saber que ela participou das comunidades eclesiais de base da igreja de D. Moacyr Grechi, foi amiga de Chico Mendes e lutou, com coragem e inteligência, contra a destruição de nossas florestas.

Ah, ela é (ou foi) amiga dos irmãos Jorge e Tião Viana, e ajudou a fundar o PT.


N.A: Texto publicado na sexta-feira, 15, no jornal A Gazeta, no Acre.


Um comentário:

  1. Engraçado, acabei de enviar para o Montysuma e para o Elton o link deste post. Nele eu falava que nos últimos dias ando atormentado por um sentimento, uma coisa crescendo no fundo do estômago, que faz com que eu repense o projeto petista ante um projeto amazônico. Eu me apressei em falar que só tive conhecimento de sua "marinada" bem recente, mas não descarto que a sabedoria paterna (risos) tenha dado mais força para pensar na Marina como uma alternativa interessante. O título tem um duplo aspecto, quando fala "o Acre na cabeça", além da ideia de ter a região com maior importância nos projetos nacionais, também podemos pensar na região dentro de nossas cabeças (da Marina também), dando sentido às nossas ações, filtrando o mundo, ou nosso jeito de ver o mundo, e nesse sentido que acho mais interessante. Só que o lugar que a floresta ocupe em nosso corpo talvez não seja a cabeça, e sim o coração, portanto a opção Marina não está no campo da razão, é mais profundo, e assim entendo sua opção, que não poderia ser outra mesmo. Espero que as pessoas entendam isto também, você não mudou seu caminho, é só olhar para trás.

    Tissiano

    ResponderExcluir

Os comentários não serão moderados, garantimos a liberdade de discordâncias, porém esperamos bom senso dos leitores e repudiamos xingamentos de qualquer espécie nas discussões sobre o conteúdo do blog ou comentários postados.