quinta-feira, 13 de março de 2014

Florestas do meu exílio


*Elson Martins


Li o livro do Capi faz algum tempo e sei que ele aguardava que escrevesse algum comentário, mas eu vinha sentindo dificuldade de desenvolver qualquer texto, por menor e simples que fosse. Talvez por ter vivido muito próximo dos personagens durante boa parte da narrativa, antes e depois do exilio, o que poderia resultar em intromissão indevida. Também não me agradava a ideia de parecer piegas ao tentar fazer avaliação literária. Sou péssimo nisso.

Preciso dizer, entretanto, que gostei muito do livro e o recomendo a todos, principalmente aos jovens que pouco sabem da ditadura militar que infernizou a vida de gerações passadas no Brasil. A história é real, está bem contada e pode servir de exemplo nos dias de hoje: de coragem, desprendimento, ideologia, amor coletivo e, também, amor e confiança extremos entre duas pessoas nascidas nas entranhas da Amazônia.

Ousaria dizer, com algum receio de ser contrariado, que esse amor entre os dois foi o que houve de mais verdadeiro e revolucionário durante toda a saga que eles viveram. Sem esse amor imenso, enriquecido por outros sentimentos humanistas fecundos, particulares e universais, eles não teriam resistido a tanto horror e provação.

Leiam e releiam, portanto, o “Florestas do meu exilio” com esse olhar diferenciado, com mais sentimento e menos conceito, pra ver se não vão se deparar com a história numa dimensão duplicada da vida, com afeto, confiança, sonho, ousadia e desapego material infinitamente ampliados!

Eu fui testemunha privilegiada desse acontecimento. Talvez por ser também da Amazônia, nascido nas brenhas de um Acre isolado e invisível, ao conhecer o casal já estava predestinado a ser cúmplice “para o que desse e viesse”. Acompanhei choros, ciúme, medos, desentendimentos que não passavam de encenação na construção de um elo afetivo indestrutível, com mil matizes de ação  nem sempre clara, nem sempre acolhedora, nem sempre justificável do ponto de vista de quem pensa coletivamente.


Janete e Capi em lançamento do livro

Aí, me dispus a ser parte dessa revolução imprevisível, nervosa, de ida e volta sem fim.

Acho que, de algum modo, nunca me desgarrei dos dois (Capi e Janete), mesmo quando a ditadura espalhava o boato de que tinham sido “eliminados” pelas forças da repressão, para não dar mau exemplo. Nem quando sumiram para atravessar não uma, mas quatro ditaduras da América Latina até ressurgirem de braço com a liberdade no Canadá distante, e na África do fim do mundo.

Eu me orgulho dessa história por ter restado parte dela na minha casa em Belém, após a fuga do Capi da Santa Casa de Misericórdia, onde se encontrava com licença de saúde do Presídio São José, mantido sob forte guarda. Fui algumas vezes à casa da Janete atrás do presídio, uma delas na tal noite (relatada no livro) em que o Capi convenceu, com argumento infalível, um segurança a saírem os dois do hospital, de madrugada, para visita-la e logo retornar. Eu e uns poucos amigos aguardávamos na casa suspeita tomando cuba-libre (rum com cocacola), ouvindo o vinil que Caetano Veloso (também no exilio) tinha gravado na Inglaterra.

Ah! Ninguem estava sossegado. Capi e o policial somente chegariam por volta das 3 horas da madrugada, e quando chegassem, Capi ou Janete levaria um copo de cuba-libre para o segurança, que teria de permanecer na sala, numa rede, sem identificar as visitas. Na cozinha, ouvíamos “A Little More Blue,” “London, London” e uma versão estonteante da música “Asa Branca”, do velho Luiz Gonzaga.

Deu tudo certo. Era apenas um teste para o que aconteceria numa outra noite: a extraordinária fuga do casal com a filhinha Artionka, de oito meses de idade, numa canoa rio acima para a história tão detalhada no livro.O risco na casa da Janete ficou indelével nos que permaneceram no prolongado medo e nojo da ditadura militar.

Na versão reinventada de “Asa Branca”, Caetano canta um refrão em forma de grunhido: nhaung- nhaung- nhaung- nhaung... Tão novo, tão lindo, tão triste, tão ameaçador que nos provocou um riso geral e descontrolado, um mal súbito, um prenúncio de saudade e dor.

Um comentário:

  1. Mas que baita relato esse do jornalista Elson Martins. Coisa de amigos. Gostei muito do riso sobre Nhaung-nhaung ... refrão do Caetano. Capi é um baita ... mas é meu amigo, será ?
    Ontem comecei a ler a floresta.

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