sábado, 7 de setembro de 2013

Papalagui Apressado

* Elson Martins       

Estamos na Semana do Meio Ambiente (2006) e nós, indivíduos chamados civilizados, convencionamos que a data é adequada para se falar sobre a natureza, a ecologia, os homens da floresta, essas coisas...
          
Por isso escolhi o tema Papalagui, título de um livrinho de pouco mais de 100 páginas (Editora Marco Zero) que tem uma dezena de edições em português e, certamente, muito mais em outras línguas. A versão original foi impressa em alemão.
          
Os textos colhidos por Erich Scheurmann são comentários do chefe indígena Tuiávii, dos mares do sul. Scheurmann esclarece que o autor jamais pensou em fazer tal publicação e que vivia com a mulher em sua ilha, desinteressado de contatos com a civilização branca. Esta, num determinado tempo histórico, teria ensinado muita coisa errada a seu povo.
          
A expressão papalagui é traduzida como branco ou estrangeiro, mas significa literalmente “aquele que furou o céu”. Surgiu como explicação ao aparecimento do primeiro missionário europeu que desembarcou em Samoa, num veleiro cujas velas brancas apareceram no horizonte como um buraco que se abriu no céu azul.
          
Livro reúne comentários de chefe indígena
Quando criança, eu gostava muito de ver os filmes rodados no arquipélago de Samoa, geralmente protagonizados por Jeff Chandler, um ator cujos traços fisionômicos se assemelhavam aos dos habitantes da região. O cenário feito de águas limpas, floresta e pessoas sorridentes valiam mais que todo o enredo dos filmes série “c” de Hollywood. Tudo parecia natural e compensador!
           
A descrição que Tuiávii faz sobre como vivem os brancos nas grandes, médias ou pequenas cidades, entretanto, não são nem um pouco honrosas. Ele não entende como nós, os papalagui, conseguimos viver trancados em blocos de cimento se fechando para as coisas singelas (e essenciais) da vida, ou correndo como tolos ou malucos atrás do tempo.
          
O tempo, segundo ele, escapa da gente “tal qual a cobra na mão molhada quando a seguramos com força demais”. Para sua tribo o tempo sobra:

Nunca nos queixamos do tempo; amamo-lo conforme vem, nunca corremos atrás dele, nunca pensamos em ajuntá-lo nem em parti-lo. Nunca o tempo nos falta, nunca nos enfastia. Adiante aquele dentre nós que não tem tempo! Cada um de nós tem tempo em quantidade e nos contentamos com ele... Não precisamos de mais tempo do que temos e, no entanto, temos tempo que chega.  Sabemos que no devido tempo haveremos de chegar ao nosso fim e que o Grande Espírito nos chamará quando for sua vontade, mesmo que não saibamos quantas luas nossas passaram.
          
Neste começo de milênio vemos que o conceito de eficiência em qualquer atividade pressupõe a correria não recomendada por Tuávii. No moderno governo da floresta do PT acreano, por exemplo, os amigos quase nem conversam mais porque precisam cumprir agenda de atividades, e o tempo parece “curto”. Além disso, quem não se enquadra na velocidade exigida vai ficando para trás como lerdo, ineficiente, descartável.
          
Durante a solenidade de abertura da Semana do Meio Ambiente, realizada na Praça Chico Mendes, em Rio Branco, um artista com função no governo chegou perto de mim e desabafou: “Estou meio angustiado porque não consigo trabalhar bem, fora do meu tempo. Eu preciso sentir o que faço e nunca sei quanto tempo isso leva”. Nessa hora, enquanto o governador lia a programação da semana, minha cabeça voltou-se para um trecho do chefe indígena de Samoa:
Devemos livrar o pobre papalagui, tão confuso, da sua loucura! Devemos devolver-lhe o verdadeiro sentido do tempo que perdeu. Vamos despedaçar a sua pequena máquina de contar o tempo e lhe ensinar que, do nascer ao por do sol, o homem tem muito mais tempo do que é capaz de usar.

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