terça-feira, 10 de setembro de 2013

Os Martins

Outro dia postei no  blog o texto “Bolero no Colégio”, falando de como aprendi a dançar esse ritmo dentro de classe, no Colégio Acreano, em meados dos anos cinquenta. Na história inclui o colega de classe Edilson Martins, que tinha o apelido de Come-Açúcar. Bem humorado, e muito melhor redator que eu, ele enviou um belo comentário, cheio de tiradas Machadianas, e não resisti em publicá-lo (segue no final deste post). Antes, reproduzo uma explicação que dei há alguns anos sobre a semelhança que carregamos no nome, ou seja, Elson Martins e Edilson Martins:

“Ele afirma ser mais novo que eu, mas, no fim dos anos cinqüenta, serviu o Tiro de Guerra antes de mim. O jornalista e produtor de TV Edílson Martins é acreano que nem eu e esteve em Rio Branco em dezembro (2008) para receber anistia política em sessão solene. Fui encontrá-lo, tomamos café no hotel e falamos mal do Altino Machado. “É saudável falar mal dos melhores amigos”! – disse ele que, no dia anterior, tinha tomado café com o Altino e falado mal de mim. Estou publicando a foto porque ainda tem gente pensando que somos irmãos, ou a mesma pessoa. Na verdade, existem mais coincidências: Saímos de Rio Branco para estudar em alguma faculdade em 1958 (ele pro Rio, eu pra Belém), nos tornamos jornalistas, fomos presos pelo regime militar e recebemos o Prêmio Chico Mendes...Só falta eu também ser anistiado e ganhar uma pensão”.


Eu e Edison (direita) na foto batida pelo garçom do hotel

Eis o texto-comentário que recebi do Edilson:

Caríssimo Elson:

Comovente o seu texto. Por gentileza do Carlos Celso, nem só de maledicência ele se alimenta, tive acesso ao resgate de parte de nossas vidas, e talvez, quem sabe, o melhor que ela nos ofereceu. Sem saudosismos. É que naquele mundo dominado pela inocência, sem prejuízo dos desejos mais pecaminosos, mais depravados, vivíamos um mundo muito além da transgressão.

A 2ª Grande Guerra não estava distante, e dela praticamente não tínhamos memória, o getulismo dominava nossos corações, o povo brasileiro ainda era um vira-latas, sem grande autoestima, sem Copa do Mundo, e nós todos mergulhados num mundo mágico, no meio de uma selva isolada, pantagruélica, de que sequer tínhamos consciência,  sem luta de classes aparente, sonhando e desejando as coxas da Marlise, encantados com a arte de ensinar da Florentina, entediados com as aulas de latim do professor Rufino,  e sem jamais imaginar que duas mulheres, de verdade, pudessem brincar de guerrear com suas aranhas.
No centro de tudo isso, o Colégio Acreano, as ruas de Rio Branco, os lamaçais pós-chuvas, as meninas lindas para os nossos olhos caipiras, a loucura do Tom Mix, a veadagem inaugural e evolucionária do Chaguinha, o culto ainda vivo à pessoa do Major Guiomar, o melhor estadista de todos os que pisaram a terra acreana. 

Por arredias, fugazes como um cometa, as calcinhas de nossas colegas de aula, num cruzar de pernas enlouquecedor, num momento de vacilo e imprudência que alguns garantiam ser sincero, inocente, se é que existe inocência na sedução, certamente eram mais cobiçadas que o liberou geral dos anos posteriores.
Mas este registro acima certamente é ridículo, por careta e premiar o passado, e passado não enche a barriga de ninguém. Mas que pareciam ter mais mistério, até porque o mistério é a vitamina do desejo, lá isso parecia!...

Como eram dóceis os nossos sonhos; o meu nem tanto por vender chá de burro, mucunzá, à noite, morrendo de vergonha, e sabendo que essa prática clandestina e criminosa me tirava do páreo de aspirar às alunas mais assediadas, mais deslumbrantes, mas apesar de tudo vivendo um mundo delirante, que o seu texto, preciso, preciso como você, nada piegas, resgatou. E o fez de forma sublime, mermão. (Edilson Martins)

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