terça-feira, 6 de agosto de 2013

Meu Candidato

* Elson Martins

Já sei em quem votar para Presidente da República. O escolhido se chama Francisco, mora na Itália e é argentino. No final de julho, durante a Jornada Mundial da Juventude realizada no Rio de Janeiro, ele hipnotizou nada menos de três milhões e meio de pessoas na Praia de Copacabana, com seu jeito maneiro de ser. Sinteticamente, disse que é possível construir um mundo melhor a partir de duas palavras  essenciais à democracia: “simplicidade“ e “transparência”.

A própria Prefeitura do Rio dimensionou a multidão concentrada na praia. Não estavam lá apenas os jovens, do Brasil e de outros 175 países representados no encontro; tinha também crianças, peregrinos, pessoas de todas as idades e gênero, turistas e religiosos. Essa gente toda  dormiu na areia de Copacabana, na noite de sábado para domingo, só para ver de perto e ouvir Francisco, que não se fez de rogado: desfilou entre a multidão acenando, sorrindo, abraçando e, sobretudo, abençoando.

Francisco: simplicidade e transparência para um mundo melhor

Claro que estou falando do Papa... É pecado, por acaso, desejar que ele seja candidato a Presidente da República do Brasil? Uma utopia a mais, ou a menos, não faz mal nenhum a quem já passou dos setenta e cansou das objetividades capitalistas. Aliás, nos anos sessenta e setenta do século 20, quando eu começava a me interessar por política, religião etc... outros dois papas – Paulo VI e João XXIII – aguçaram meus ânimos simplistas e coletivos. E olha que eu nunca fui, nem consigo ser, ainda, um católico fervoroso!

Acontece que o Papa Francisco encarna o político que eu gostaria de ter como opção de voto nos dias de hoje. Não importa que seja argentino, coisa, aliás, que ele tirou de letra quando um repórter da TV Globo perguntou sobre a histórica rivalidade entre os dois povos (Brasil e Argentina), principalmente no futebol! O repórter, certamente, pensou em lhe criar embaraços ao colocar a questão numa entrevista para o programa Fantástico, da emissora, mas Francisco mandou bem: “Ah, essa é uma questão já resolvida: combinamos que, sendo o Papa argentino, Deus é brasileiro”!

Desprendido e descontraído, Francisco recusou e desfez, durante o encontro, formalidades e vantagens inerentes à função que exerce como líder mundial dos católicos. Ficou à vontade para anunciar uma nova igreja e uma nova sociedade possíveis, a partir de um novo cristão. Ele quer uma igreja solidária  e ética que faça a opção pelos pobres e oprimidos do mundo, uma igreja atenta aos problemas sociais e políticos, uma igreja paciente e não preconceituosa. Neste particular, citou as mulheres, que devem exercer funções na igreja,  e os gays, aos quais os templos católicos podem acolher como filhos de Deus.

Ao mesmo tempo, o Papa recomendou a todos que se previnam contra a corrupção, a má politica, as ditaduras e as influências malignas do dinheiro e dos bens materiais que entortam a vida das pessoas.  Por várias vezes, criticou a exclusão dos jovens e dos idosos na sociedade hodierna. “São extremos aos quais é preciso ouvir  e tornar protagonistas da sociedade ética e fraterna que queremos construir num mundo melhor”. Simplicidade e transparência, segundo o sumo pontífice, são palavras básicas para a construção da democracia.

De quebra, o Papa Francisco encaixou na sua “liturgia” uma palavrinha mágica que anda esquecida, embora tenha sido essencial na formação dos jovens de todos os tempos. Ao se referir, especificamente, aos jovens da atualidade, recomendou com um sorriso maroto, seguido de emoção vermelha no rosto:  

"Sejam revolucionários”!   

4 comentários:

  1. É por essa e por outras que eu gosto tanto desse meu amigo e professor Elson Martins. Grande beijo, querido! Onides.

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  2. Sempre mestre com suas palavras, sempre bom ler o que você escreve e pensa, Elson.

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  3. Muito boa a sua análise a respeito dessa personalidade que põe a Igreja Católica em transformações. Abraço.

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  4. Parabéns, amigo!!! Você continua o mesmo de quando o conheci, nos idos de 1995, escrevendo tudo o que a gente quer ler, utilizando-se da sua marca registrada: simplicidade/objetividade. Lindo o texto e muito pertinente. Abs,

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