domingo, 11 de agosto de 2013

Coronel Chico Martins

* Elson Martins

Nenhum dos Silveira, entre os mortos e os vivos, soube informar como meu pai, um agricultor analfabeto nascido em Baturité, no Ceará, tornou-se seringalista. Nem como se envolveu com a Revolução Acreana merecendo a pensão de veterano de guerra. Aldery, minha irmã mais velha (éramos 12), narrava a aventura familiar com lapsos de memória difíceis de suprir com outras fontes. A história que ouvi dela em rápidas visitas a Icoaraci, cidadezinha próxima a Belém, no Pará, onde morreu em 2006 me autoriza a escrever: Francisco Martins da Silveira foi um dos protagonistas da saga amazônica de mais de um século que gerou o planeta Acre.

João Martins da Silveira, irmão instruído de nosso pai, veio do Ceará para a Amazônia no final do século 19 estabelecendo-se no alto rio Acre – provavelmente, no seringal Empresa (hoje Rio Branco, capital do Estado) – para onde atraiu os irmãos Otávio, Francisco e José. Após a revolução de 1903 e por conta da crescente valorização da borracha, subiu o rio Iaco e abriu o seringal Potiguar que transferiu, anos depois, a Francisco e Otávio. O terceiro irmão, José, aventurou-se pelo vale do Juruá, só retornando ao Iaco décadas após. Ele e os filhos se tornaram seringueiros em Nova Olinda, seringal adquirido pelos irmãos.

O Potiguar era pobre de seringa, mas tinha solo fértil. Chico, experiente agricultor, aproveitou-se disso para produzir alimentos para os seringais vizinhos, entre os quais o Nova Olinda, que pertenceu ao abastado Alfredo Vieira. Na década de vinte, com a borracha em estado de falência, o seringalista lhe transferiu a propriedade em declínio por uma ninharia.

Francisco Martins e Maria de Nazaré, ou seu Chico e dona Lelé, formavam um casal incomum. Ele era um tipo rude, destemido, e ao mesmo tempo amoroso e honesto, que se rendia com facilidade aos fenômenos míticos e imponderáveis da floresta. Quando se dirigia ao roçado que cultivava sozinho, o que contrastava com sua condição de seringalista, imaginava encontrar pelo caminho alguns mortos a quem, embora com sobrosso, fazia questão de cumprimentar: “Bom dia, compadre”! Dona Lelé, vinte anos mais nova, carregava no semblante uma timidez indígena, atribuída à sua origem paraense; mas tinha atitudes justificadas pelo sobrenome de solteira, Marques de Andrade, de sangue europeu. Falava pouco, não se alarmava, mas aplicava um olhar fulminante nos casos de reprovação.
         
Ela não era uma matriarca de seringal como as que aparecem nos romances ou nas teses de mestrado e doutorado que tratam do primeiro ciclo da borracha (1890-1914). Lelé foi uma trabalhadora da floresta, cozinhava para seringueiros que vinham do centro da floresta para resolver problemas de aviamento ou de doença na sede do seringal, na margem do rio. Lavava e passava roupa, criava galinhas e patos, tratava dos filhos com remédios caseiros e nas horas vagas, os alfabetizava com o conhecimento do curso primário feito no Ceará. Algumas vezes, ouvi dela relatos de sua adaptação à vida na floresta. Temia as onças e as cobras ao lavar roupa num igarapé dentro da mata. Seu Chico, como tratava o marido, tinha que acompanhá-la e permanecer de cócoras no local, com um rifle na mão, até que ela encerrasse o serviço.


Dona Lelé e seu Chico

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) pegou a família unida em Nova Olinda. A borracha voltara a ter valor por conta do Acordo de Washington que criou um fundo para reativar os seringais amazônicos, e por alguns anos viveu-se a expectativa de um novo surto econômico da borracha. Mas a decisão era apenas uma contingência da guerra: a indústria norte-americana de pneus, artefatos cirúrgicos e outros produtos de látex ficou sem a matéria-prima produzida na Ásia porque os japoneses, aliados do nazismo, bloquearam o abastecimento. Daí a convocação dos “soldados da borracha” no nordeste brasileiro para protagonizar o efêmero segundo ciclo da borracha na Amazônia.
          
Eu não tinha noção do que isso representava tampouco me dava conta de que morávamos no casarão deixado por Alfredo Vieira com sinais (apodrecidos) de uma arquitetura requintada. No período da guerra, meu pai e tio Otávio viveram alguma prosperidade: o armazém se encheu de mercadorias, as pélas de borracha chegavam dos centros e seguiam rio abaixo para Manaus e Belém. O casarão, que até então não conhecia a energia elétrica, ganhou um gerador para ocasiões especiais e acolheu “extravagâncias” como biscoito e bombons europeus.

As casas aviadoras estrangeiras com prepostos em Belém e Manaus esvaziavam seus depósitos de produtos industrializados e supérfluos impondo aos seringalistas produtos não solicitados. Lembro-me de uma vitrola RCA Victor, do tamanho de um freezer horizontal, que foi desencaixotada em Nova Olinda. Chegou acompanhada de uma pilha de discos de música clássica e alguns xotes e baiões. O aparelho era impulsionado por uma manivela lateral, à qual se “dava corda” para girar o toca-discos, em cujo braço se prendia uma agulha grossa, de aço, parecendo um prego curto sem cabeça. Em pouco tempo o extravagante aparelho foi abandonado num canto da sala, sem uso, embora eu tenha ouvido Mozart e outros clássicos sem imaginar como eram produzidos sons tão belos.
            
O casarão ficava acima do chão mais de um metro, apoiado sobre esteios de maçaranduba e acapu. Tinha pé direito alto, com varanda, portas e janelas entalhadas, o assoalho desenhado com lâminas de madeira formando gregas. Uma escada metálica, de cobre, com corrimão dourado que teria pertencido a um navio naufragado dava acesso à varanda e à sala de estar.  Entre esta e o local das refeições, onde se estendia uma mesa comprida com bancos corridos, havia um escuro corredor central com três quartos de cada lado. E, lá no fundo, a cozinha com paredes e piso de paxiúba.
          
Num dos quartos à direita – que certamente teria sido ornado com colchas e rendas no começo do século 20 – meu pai amontoava folhas de tabaco para serem enroladas em molhos, como ainda hoje se faz em alguns seringais. Outro quarto era utilizado pelo velho Biu, um negro viúvo que se tornara membro da família. Ele cultivava roçado, ordenhava vacas, fazia pão de milho, cozinhava macaxeira e carregava água da cacimba para abastecer a cozinha. Sofria de uma hérnia na virilha, o que o forçava a utilizar um instrumento feito de sola para segurar os testículos. Seu quarto parecia impenetrável, dispondo de uma rede, um baú velho, calças e blusões de mescla azul estendidos numa corda. Pequenas porções de tabaco migado e um cachimbo sobre uma mesa tosca completavam o arranjo, ao mesmo tempo bucólico e estranho.
          
Sua fala era um resmungo quase inaudível, que ele complementava com gestos enquanto fixava os olhos em algo invisível. Demonstrava, entretanto, possuir audição aguçada para os sons da floresta e do rio.  Previa com dois dias de antecedência (pela batida do motor) a chegada de um batelão ao seringal. Sabia distinguir a lancha do Jorge Antônio, navegador pioneiro do Iaco, de qualquer regatão. As queixadas (porcos do mato) que reviravam seu roçado de macaxeira, e os japós, pássaros de bico grande que comiam parte do seu bananal o irritavam. Quando a família deixou o seringal ele foi junto, até o Amapá, onde morreu de velhice.
            
Imagino que o casarão no qual vivi a infância era apenas uma sombra do que havia sido durante o primeiro ciclo da borracha. Na versão do meu tempo não existia banheiro nem sanitário interno. Para o banho e a lavagem de roupa todos recorriam a uma cacimba natural localizada a 200 metros, ladeira abaixo, com paredes e cobertura de palhas de jarina. A “sentina” (sanitário) ficava nos fundos, a 50 metros, fora da cerca de arame farpado que protegia o quintal. Constava de um buraco cavado no chão em volta do qual foi construída uma “casinha” de paxiúba com um caixão no centro. A pessoa fazia suas necessidades fisiológicas de cócoras, naquele caixote fétido e ao som das varejeiras.
          
No quintal, animais domésticos e outros apanhados na floresta somavam mais de uma centena. Porcos, carneiros, patos, jacus e jacamins se acomodavam à noite debaixo do casarão. As galinhas dormiam em galinheiro, protegidas contra mucuras (gambás). Na falta da carne de caça podiam ir para a panela.  Com o mesmo objetivo criavam-se pombos misturados a nambus e rolinhas. E por dentro de casa circulavam bichos de estimação como paca, macaco, papagaio e corujas que voavam entre os caibros catando mariposas.
          
O chamado segundo ciclo da borracha foi efêmero. E tão distinto do primeiro, que as histórias e situações não cabem iguais nos relatos. Os pesquisadores bem que podiam estudar sobre a mudança ocorrida na floresta. Quem sabe iam descobrir que o “centro” e a “margem” dos seringais inverteram papéis em decorrência da desvalorização da borracha. Acredito que muitos seringalistas saíram da floresta porque não sabiam viver dela enquanto base de recursos não mercantis. É possível citar exemplos eloqüentes dessa inversão: eu, filho de seringalista, morria de inveja dos filhos de seringueiros que vinham nos visitar, percebendo que eram maduros e hábeis com as armas, falavam de bichos e plantas com detalhes e encantos que eu desconhecia.
          
Minha mãe vivia a nos alertar: “Cuidado! Tem onça rondando as galinhas e ovelhas no acero da mata”. O alerta fazia sentido. Certa noite de lua cheia, uma pintada veio buscar a porca Xandoca que estava em via de parir debaixo do casarão. Acordamos com os gritos dela, o latido incomum dos cachorros e o alvoroço dos patos e galinhas. Meu irmão mais velho, Walter, disparou um tiro de espingarda doze na agressora, quando ela tentava transpor a cerca de quase dois metros de altura com a presa entre os dentes. O animal ganhou a mata e fomos ver o estrago: além da porca mãe agonizando com a barriga aberta, restavam cerca de dez embriões de bacorinhos espalhados em poças de sangue.
          
Cresci ouvindo e até testemunhando casos trágicos ou de assombração protagonizados por seringueiros ou por meus irmãos e irmãs. Ouvia também histórias de almas penadas narradas por meu pai. Esse mundo mágico não é, percebo agora, para principiantes. Ou seja, não pode ser compreendido por quem não se entrega para fazer parte dele disposto a viver o inverossímil como fato do cotidiano. As pessoas que se adaptam a ele vivem em parelha com o perigo, salvando-se por adestramento natural. E nem sempre é o mais forte quem vence.
          
O toque de resistência, arrisco dizer, é o espírito. O espírito que se rende ao esturro da onça mais que ao confronto com o animal; o espírito que nega explicar o agouro da guariba e o espírito que se entrega ao encantamento da jiboia faminta sabendo que pode desfazê-lo com alguma magia da floresta.

N.E - Este texto publicado hoje integra uma coletânea de crônicas e artigos organizadas pelo autor do Almanacre. Como neta de seu Chico Martins, aproveitei o fato de ser agora responsável pela atualização do blog para prestar minha homenagem ao grande jornalista e pai, Elson Martins. Feliz Dias dos Pais! (Vássia Silveira) 
        


2 comentários:

  1. Vássia que maravilha!
    Impossível comentar sem fazer uma referência a leitura que fiz hoje pela manhã da II Leitura da Liturgia diária (Hebreus, 11,1-2.8-19 ou 1-2.8 -12)
    “Leitura da carta aos Hebreus - Irmãos, a fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem. Foi a fé que valeu aos antepassados um bom testemunho. Foi pela fé que Abrão obedeceu à ordem de partir para uma terra que devia receber como herança e partiu sem saber para onde ia” e continua...
    Que Elson continue esta narrativa tão deliciosa de ler...e vc não desista da sua,- que espero esteja só adormecida.
    Angela de carvalho

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  2. Nossa!!! Texto maravilhoso, com direito à aula de história dos seringueiros sofridos da amazônia. Muito bem lembrado pela sra. Angela Carvalho, o texto da carta aos Hebreus, em seu cap 11, pois tal como ocorreu a Abraão, seu Chico foi um guerreiro, destemido que, como aquele, poderia ser chamado o "Pai da fé" em nossos dias.
    Parabéns, Elson! Parabéns Vássia! Vocês nos encantam com suas crônicas/narrativas.

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