terça-feira, 11 de janeiro de 2011

ZEE do Acre: janela aberta

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 9jan2011
Exposição na Biblioteca da Floresta

Está aberta ao público na Biblioteca da Floresta,em Rio Branco, desde o  final de dezembro, uma exposição sobre o Zoneamento Ecológico Econômico do Acre que  representa instrumento de identificação territorial fundamental para o planejamento do desenvolvimento sustentável da região. Melhor que isso, o ZEE permite a qualquer cidadão conhecer a riqueza natural do seu Estado, o que pode (ou não) ser explorada, a aptidão de cada  área, etc., e ainda informa sobre a história, ocupação, cultura e tradição de comunidades  tradicionais da floresta.
A exposição precisa ser vista por estudantes, pesquisadores, estudiosos da Amazônia, pelas pessoas de um modo  geral que vão ficar conhecendo melhor o Acre. Certamente, vão todos se orgulhar da terra onde vivem, e acreditar num  futuro melhor a partir de suas  potencialidades. Vão também encontrar argumentos para defender a preservação de nichos  ecológicos que, com a ajuda da ciência, responderão pela prosperidade da população acreana  mais em frente. Poucos estados, no Brasil, possuem um ZEE tão detalhado. No caso do Acre, foram  quase uma década de estudo,  pesquisa de campo e discussão
com entidades representativas  da população para fechar o projeto. A primeira fase começou  em 1999, no primeiro mandato  do então governador Jorge Viana (PT). A segunda alcançou o  governo Binho Marques (1906- 1910) que submeteu o projeto à  Assembleia Legislativa e o oficializou por decreto. Agora, o
ZEE está pronto para ser usado. Quem acompanhou o processo e pode agora supervisionar seu uso com acerto e autoridade é o biólogo Edegard  de Deus, recém-nomeado secretário de estado do Meio  Ambiente. Paulista de Ribeirão Preto, ele veio para cá em  1978 compondo uma leva de  jovens professores contratados pela Universidade Federal do Acre. De lá pra cá, esteve sempre ligado ao meio ambiente: ajudou a criar o Parque Zoobotânico da UFAC,
fez parte da ONG SOS Amazônia e se envolveu com a luta dos povos da floresta que  salvou o Acre da bovinização. Ou seja: se acreanizou.
A partir de 1999, data de  nascimento do ZEE, tem atuado como secretário do Meio  Ambiente enfrentando duras  pelejas. Em 2009 e 2010 chegou a responder na Justiça  pela má conduta de um auxiliar que andou facilitando autorização para desmatamento  ilegal. Passou por um sufoco,  mas acabou inocentado. Por
conta desses atropelos, entretanto, passou quatro anos numa espécie de exílio politico, como coordenador geral  da Biblioteca da Floresta, um  departamento da Fundação  Cultural Elias Mansour com  quase nenhuma autonomia financeira. Mesmo nessas condições,  mas com a ajuda de um pequeno grupo de  pessoas comprometidas com a sustentabilidade ambiental, politica, social, econômica e cultural do
Acre, chamou atenção para a Biblioteca. De fato, em menos de três anos, organizou  excepcional acervo sobre a  história, a cultura e a tradição  acreanas, e principalmente  sobre as lutas socioambientais  iniciadas pelos seringueiros nos anos 1970, transformando a Biblioteca da Floresta em  porto seguro para quem se interessa por essas histórias.
De fato, ao inaugurar a exposição do ZEE em dezembro de 2010, a instituição fez  uma festa: lançou livros e revistas feitas em parceria com  outras entidades, dois DVDs  com cerca de 30 mil arquivos (em vídeo, áudio e fotografia,  além de artigos, reportagens  e teses acadêmicas), e lacrou  uma urna com parte desse material e três mil mensagens escritas por frequentadores. A  urna foi inspirada numa mensagem de Chico Mendes endereçada aos jovens de 2120,  ano em que será aberta.
O ZEE, insisto, será daqui para frente preciosa fonte  de consulta sobre a realidade  acreana. População, florestas,  rios, lagos, produção, tradição  cultural, distancias, tribos indígenas, flora, fauna, crenças,  clima etc. – tá tudo lá dentro,  como conhecimento cientificamente produzido e legitimado com a participação das
comunidades.
Quiçá seja utilizado como  livro de cabeceira por todos  que vivem no Acre, ou que planejam fazer algo no Acre.

CORREIO

Ex-marido de Dilma Rousseff
Carlos Araújo (Foto: Daniel de Andrade)
Carlos Araújo surgiu na primeira safra da resistência à ditadura militar de 1964. Foi preso em agosto de 1970 como militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), organização de esquerda que propunha a luta armada. Conheceu Dilma  Rousseff durante os deslocamentos para responder por crime político. Foi preso e interrogado pelo Romeu Tuma, ex-diretor do DOPS que, cinicamente, após a ditadura se dizia democrata.
Antes da VPR, militou no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Nasceu em São Francisco de Paula no Rio Grande do Sul. Aos 14 anos foi detido pela primeira vez, pichando muro em Porto Alegre em defesa de “O Petróleo é Nosso”. Seu pai, Afrânio Araújo, foi um renomado advogado. Faleceu em 1974. Carlos namorava a atriz Bete Mendes, outra militante de esquerda que atuava nas novelas da TV Globo; depois viveu um tempo com a também militante Vânia Abrantes, até conhecer Dilma no presídio Tiradentes, em São Paulo. Os dois se apaixonaram na prisão.
Após dois anos de detenção, Dilma foi solta e passou a visitar Carlos Araújo. Levava livros, cigarros e mantinha com ele relacionamento íntimo, de casal. Assim mantinham-se informados sobre a realidade brasileira e o futuro político. Após a prisão, casaram e viveram 30 anos juntos, até 1999. Têm uma filha fruto dessa união, a linda mulher que  desfilou com a mãe no dia da posse como Presidente da República, e que lhes ofereceu um neto.
O casal alinhou-se politicamente com Brizola, Dirceu  Collares, Aldo Pinto e Valneri Antunes (o Átila), entre outros,  como filiados ao PTB. Após perderem a sigla do PTB para Ivete Vargas, recriaram o PDT. Nesse período, organizaram movimentos sindicais, camponeses e operár ios, o que rendeu a Carlos apoio e votos para as eleições do PDT.
Foi eleito por três mandatos a Deputado Estadual: em 1982,  1986 e 1990. Por duas vezes, perdeu a eleição para os petistas Olívio Dutra e Tarso Genro a prefeito de Porto Alegre. Em  1985, Carlos e Dilma se  dedicaram de corpo e alma à eleição  de Alceu Collares e pela primeira vez Dilma foi nomeada, com
 a indicação do marido, para a Secretaria Municipal da Fazenda  do Município de Porto Alegre.
Carlos desligou-se da militância política do PDT em  2000 e voltou a advogar. Desde então, adotou vida discreta  e sossegada. É um homem culto e inteligente, grande orador,  corajoso, correto na ação e na palavra. É profundo conhecedor do marxismo e da dialética, solidário e humano. Político como ele está em extinção no Brasil. Dilma Rousseff aprendeu com ele, e vice-versa.
(Texto produzido com informações passadas por Daniel de  Andrade, autor do blog saitica.blogspot.com que vive em Porto Alegre)

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