quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Últimas edições do Varadouro

Varadouro 23: tempo de mudanças

“Nesta edição, o novo em Varadouro está na matéria sobre educação infantil, onde se levanta algumas indagações acerca do significado da formação a partir da qual são moldadas nossas crianças. E também nos desenhos de Branco (Roberto Medeiros) – desenhos jovens que retratam a vida com humor e serenidade”.
É o que está dito no editorial da edição 23 do Varadouro, que circulou em agosto/setembro de 1981. Os desenhos de Branco, um tanto surrealistas, ocupam as páginas 14 e última. Na página 14 o jovem desenhista descreve “uma viagem fantástica à Estexper, estação orbital do planeta” e anuncia: “Estamos no ano de 1981, o ano versátil por excelência. O homem já foi à Lua, está perto de Marte e já existe o orgasmo múltiplo”.
Decididamente, o Varadouro buscava uma linguagem urbana adequada às mudanças de comportamento que se impunham na agitada Rio Branco dos anos 1980. A ditadura militar começava a entregar os pontos, o bar Girau, da Socorro, perdia sua clientela de esquerda para o Casarão e para o Café Concerto, da Rose, que se tornou o “point” da boemia com liberdades infinitas. O local de abrangência do bar (rua Alvorada, Bosque) ficou conhecido como “Esquina do Pecado”.
E tinha, sobretudo, as mudanças no plano político e ideológico. No livro Comunicação Alternativa e Movimentos Sociais na Amazônia Ocidental, o sociólogo Pedro Vicente Costa Sobrinho faz um estudo inteligente das agruras e venturas do Varadouro (tema de sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo) mostrando fatos que influenciaram no fechamento do jornal na edição 24, em dezembro de 1981. Na página 163 da obra publicada em 2001 pela Editora Universitária da Universidade da Paraíba, ele informa:
“Observa-se que a partir de 1979, além dos encargos com a correspondência dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil assumidos pelos jornalistas Elson Martins e Silvio Martinello, editores e principais repórteres do Varadouro, estes passaram a editar o diário Gazeta do Acre, no qual parte da equipe de redação do alternativo engajara-se. A sobrecarga de trabalho daí proveniente repercutia, com certeza, no desempenho do jornal das selvas, tanto é que no ano de 1979 apenas circularam quatro edições. Em 1980, só duas edições: março e maio. A equipe já vinha revelando um certo cansaço, resultante, em parte , das dificuldades naturais de se fazer um alternativo no Acre. Por outro lado, a abertura democrática, a suspensão da censura, a anistia etc., enfim, a crise da ditadura alargou as possibilidades de a grande imprensa tratar de assuntos antes reservados aos alternativos. Além disso, os partidos e agrupamentos da esquerda clandestina ensaiavam o rompimento das frentes, e ainda começavam a organizar seus próprios meios de comunicação. Na imprensa alternativa mais política o fato já veio antes ocorrendo, pois o Opinião gerou o Movimento, que gerou o Em Tempo, que gerou o Amanhã e daí por diante”.
Pedro Vicente informa que “no Acre o PC do B articulou a distribuição do Movimento chegando a vender 150 exemplares semanais e manter mais de 80 assinantes mobilizando para isso pessoas ligadas à esquerda católica e às CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). Outros jornais ligados à esquerda começaram a mobilizar sua militância para que fossem distribuídos: Hora do Povo, O Trabalho, etc. O ajuntamento de outras pessoas ao grupo, anunciado pelo Varadouro, em editorial na edição de abril de 1981, estava longe de assegurar a permanência do jornal”.
A qualidade do Varadouro, contudo, não foi alterada com as mudanças. Esta edição tem como matéria de capa uma ampla reportagem sobre os migrantes que chegam do sul do país procurando um pedaço de chão nos projetos do Incra. Fragilizados, com um histórico de expulsões em outras regiões, eles falam de seu calvário com indignação, mas não perdem a esperança. Eles vieram de Itaipu com crianças e caixotes e foram jogados em barracos improvisados no projeto Pedro Peixoto. Mas a situação de onde eles vieram era pior.
”Enquanto eu tiver vida – diz o baiano Arnaldo, vindo do Paraná – eu quero mexer com o corpo”...

Link para download do site da Biblioteca da Floresta: Varadouro, número 23

Varadouro 24: missão cumprida

Um pé de maconha em fotografia arregaçada na capa do jornal? Só o jornal Varadouro tinha tanta ousadia! Afinal, o ano era 1981, o país ainda vivia sob uma ditadura militar e o Acre – meu Deus! – que garantia podia oferecer a um grupo de jornalistas que há quatro anos cutucava a onça com vara curta? Mas estava lá, na capa da edição 24 (a última) que circulou em dezembro, a matéria com o título “Maconha: ilusão ou busca”?
Por que maconha na capa do Varadouro? – indagam os próprios editores do jornal pensando na explicação que queriam dar no pequeno editorial (sempre disfarçado de “neste número”) na segunda página:
“Em primeiro lugar, porque para nós não existem temas proibidos. Todos os assuntos de importância social são tratados com franqueza e coragem”. O jornal informa que a maconha joga milhares de jovens na marginalidade e nas garras da polícia, e que em Rio Branco teriam sido presos 100 fumantes entre janeiro e outubro daquele ano.
Na pagina 6 a matéria é desenvolvida com o título: “Por que se fuma maconha? E são os usuários que respondem: uma universitária, uma funcionária pública e um artista deram depoimento falando de suas experiências com a droga. Claro, sem serem identificados. A fotografia que ilustra a matéria mostra uma jovem caminhando junto a um muro onde se lê a pichação: “Cresça, faça a cabeça”! Na contracapa da edição, mais provocação: o desenhista Branco faz uma viagem pelo “Dai-me astral”.
No mais, era o Varadouro de sempre, com destaque para a matéria das páginas centrais: “O que o acreano espera de 82”, ou seja, qual a expectativa da população sobre as eleições daquele ano? A secretária da associação das lavadeiras de Rio Branco, Maria Costa dos Santos, nascida em Sena Madureira, 30 anos e 10 filhos, dá uma resposta consciente e engajada: “Estou confiante não por causa dos políticos, mas por causa do povo”.
Na página 18 tem uma matéria que até hoje sugere reflexão: “Seringueiro não vira colono paranaense”. Nas assembléias dos seringueiros organizados em sindicatos a partir de 1975, era comum ouvir-se que eles não queriam trocar sua colocação de seringa dentro da mata, com 300 hectares de floresta, por um lote do Incra de 100 ou menos, voltado para a produção agrícola. Anos depois (1990) eles conquistariam as Reservas Extrativistas.
Desta forma, com brilho, Varadouro fechou seu curto ciclo de vida. Mas seus editores nunca imaginaram que aquela edição era a última, como bem observou o sociólogo Pedro Vicente Costa Sobrinho, no seu livro Comunicação Alternativa e Movimentos Sociais na Amazônia Ocidental (2001). Segundo ele, Varadouro estava fadado a acompanhar o destino dos irmãos alternativos do resto do país. “Na notícia do desaparecimento do jornal Movimento, que foi veiculado neste número 24, Varadouro cometeu uma grave omissão: deixou de também incluir no texto o seu próprio desaparecimento, pois a partir daí sumiu sem uma explicação para o seu público” – escreveu.

Link para download do site da Biblioteca da Floresta: Varadouro, número 24

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