quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Índia Quéchua é ministra na Bolívia

Durante a II Feira Panamazônia de Economia Solidária realizada em Rio Branco (AC) no período de 19 a 24 de outubro, e que contou com a participação de oito paises latino-americanos e 300 expositores, a ministra boliviana Antônia Medrano chamou atenção por sua simpatia e engajamento na política de economia solidária. Na ocasião, a jornalista Onides Bonaccorsi Queiroz a entrevistou para o jornalzinho da Prefeitura, Meu Lugar, escrevendo o belo texto abaixo:

Meu doutorado é a vida

*Onides Bonaccorsi Queiroz

Ao chegar ao Seminário Latinoamericano de Economia Solidária, evento integrante da Feira Panamazônia, tratei de perguntar sobre a ministra boliviana ali presente e minha informante, da coordenação do evento, foi muito clara:
– Está na lá na frente do auditório, vestindo uma blusa branca com flores coloridas. É uma pessoa bem agradável.
Dirigi-me ao espaço, alcancei a primeira fila e foi fácil localizá-la: era clara e trajava um vestido simples e charmoso, com o toque artesanal de bordados coloridos, que me pareceu perfeito para a ocasião, dada a tônica do evento e adequado à função que exerce, estritamente relacionada com a economia informal. “Mirna se enganou.” – pensei. “A roupa dela é bege. Mas tem florzinhas mesmo.” Dirigi-me, então, a essa mulher e perguntei:
– A senhora é Antonia Medrano?
– Não. É esta – e apontou para o seu lado direito.
Quase caí de costas com o susto: a ministra era uma índia quechua, com traje típico, de chapéu e tudo! Por essa eu não esperava.
Ai, que gafe! Em fração de segundos, tentei argumentar, comigo mesma, que o que causara o engano foram as tais florzinhas. Mas o olhar da mulher para mim, que assistiu a toda a cena impassível, era tão digno e transparente, que eu desisti de mentir. E admiti internamente: sem querer, exerci o preconceito. “Uma mulher do povo não pode ser ministra”, era a crença gravada na minha mente.
Então aceitei a minha falha. E reagi. Pedi licença para entrevistá-la, consentiu. Pareceu-me mesmo que já estava acostumada com esse tipo de confusão, o que confirmei mais tarde, com pelo menos duas pessoas que caíram na mesma cilada que eu. Atendeu-me com atenção e gentileza. Quando começou a falar, com muita firmeza e propriedade, compreendi que ela tinha tanta consciência de sua identidade, que um ato de  discriminação qualquer não afetava sua segurança. Senti-me, de certa forma, perdoada.
E fiquei ainda mais curiosa de conhecer sua história. Contou-me que nasceu no campo, na localidade de Duraznos, e ali viveu, como lavradora, até os 11 anos de idade. Depois foi para Potosí, trabalhar como empregada doméstica. Casou-se aos 21, quando aprendeu a fazer artesanato têxtil. Foi então que começou a se envolver com movimentos sociais, sobretudo com mulheres e geração de renda. “Sempre quis aprender e ensinar”, diz ela. Tarefa que não fluía com tanta naturalidade, pois eram os anos setenta, de “gobierno muy duro”, relata. Mas foi dessa forma exposta a injustiças sociais gritantes que forjou seu caráter de batalhadora incansável pelos direitos do povo.
Pouco mais tarde, o marido a abandonou com três filhos pequenos, o que tornou sua tarefa ainda mais árdua. Ainda assim fundou, em 1989, a Associação Artesanal Boliviana Senhor de Maio, de economia solidária.
Criou os filhos, formou-os; Juan Carlos é engenheiro agrônomo, Benjamín é técnico superior em eletricidade e Miguel Ángel, dentista. Tem quatro netos: “un varón y tres mujeres”.
Em 2007, elegeu-se vereadora por La Paz. Angariou ainda mais visibilidade e em janeiro deste ano foi empossada Ministra do Desenvolvimento Produtivo e Economia Plural da Bolívia pelo presidente Evo Morales.
Sabe que alcançou o elevado cargo devido ao valor supremo da sua experiência: “o meu doutorado é a vida”. Trabalha muito. Marca reuniões com os líderes dos movimentos sociais às 5 da manhã, o único horário livre que tem. Mostra-se profundamente tocada com o problema da fome, e no seu discurso comove os presentes.
Quando fala de sua infância, vê-se o que a impele a ser tão verdadeira e forte. Pequena, chegava a passar dois ou três dias sem comer e conta que seu estômago doía de fome. Diz, também, que quando era doméstica, davam-lhe “qualquer coisa para comer”. As experiências terríveis, como não poderia deixar de ser, marcaram-na profundamente. Por isso entende que o mais fundamental dos direitos sociais é o de comer.
De minha parte, declaro que aprendi, ou pelo menos comecei a aprender a minha lição, que, a bem da verdade, é a lição de todos os seres humanos. E tem implicações diretas sobre a economia. Já passa da hora de cada um se responsabilizar, pessoalmente, em abandonar os velhos modelos centralizadores e autoritários, o orgulho, a cobiça, o individualismo. Está na hora de saltar para a instância coletiva. Para a cooperação e compartilhamento, atitudes que ainda podem salvar o planeta, a que Antonia chama tão carinhosamente de “Madre Tierra”. Está na hora da economia solidária.

* A jornalista Onides Bonaccorsi Queiroz nasceu no Paraná, mas vive em Rio Branco, Acre, desde 2010. Escreve semanalmente no jornalzinho Meu Lugar, da Prefeitura e assina o blog verbodeligacao.wordpress.com onde expressa forte sabor de literatura.

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