domingo, 3 de outubro de 2010

Escolha ideológica

Coluna publicada no Jornal Página 20 | 3out2010

Ilustração da ditadura militar brasileira de 1964, publicada na coleção Retrado do Brasil pelos jornalistas Mino Carta e Raimundo Rodriges Pereira
Jânio Quadros foi o meu primeiro voto e também minha primeira decepção política. Em 3 de outubro de 1960, portanto há 50 anos, me tornei um dos 5,6 milhões de eleitores brasileiros que o elegeram Presidente do Brasil pela UDN. Em Seis meses de mandato, entretanto, ele só se destacou por ter proibido o biquíni e adotado o uniforme cubano para os funcionários públicos federais... Por fim, renunciou dizendo-se pressionado por “forças ocultas”.

O vice Jango Goulart, eleito pela coligação PTB-PSD (na época, o vice era escolhido em votação separada), assumiu o posto após agitadas discussões políticas e queda de braço com as forças armadas. Os partidos ou organizações de esquerda formadas por cisão do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e PC do B (Partido Comunista do Brasil) tinham como referências revolucionárias, Cuba e China.

Jânio Quadros me convencera ao prometer em campanha eleitoral (pelo rádio) varrer toda a sujeira da administração pública do País. Era populista, bom de discurso, de tal forma que nem percebi que sua vassoura era apenas um brochinho de lapela. Tal qual o broche-espada do principal concorrente, o General Henrique Lott.

Lembrei de meu vacilo nestes últimos dias da campanha política versão 2010 no Acre, ao ver pela televisão uma jovem e bela acreana anunciar que empregará seu primeiro voto para eleger um candidato populista ao Senado. Espero que ela não sofra tanto!

Em 1963, concluí o segundo grau num colégio público do Amapá, para onde me deslocara em 1959, e tomei uma decisão corajosa: larguei o emprego na Vasp para aventurar-me em Belo Horizonte, capital que alimentava meus sonhos. Tinha acabado de ler o livro “Encontro Marcado”, do escritor mineiro Fernando Sabino e queria viver algo parecido por lá. Em janeiro, fiz vestibular e em março comecei a cursar Belas Artes na Escola Guignard, e cinema na Universidade Católica.

Com mais um pouco de sorte, arrumei trabalho aos domingos como redator de notícias da Rádio Inconfidência (do Estado), depois trabalhei também na Rádio Tiradentes (da rede Globo). Nesta última começava de madrugada levantando as ocorrências policiais para o noticioso que ia pro ar às 7 horas.

Ganhava o suficiente para pagar a pensão e a lavagem de roupa, mas não sobrava para o transporte. Meu deslocamento tinha que ser na “pátria amada”. Tudo bem, sonho e coragem não me faltavam. Queria ser crítico de cinema e artista plástico, começara a viver em ambiente universitário freqüentando barzinhos e livrarias. Lia tudo: romances, obras de marxismo, Sartre, Bertrand Russel, Bakunin, biografias... Era um aprendizado rico para um jovem saído das barrancas do seringal Nova Olinda, Rio Iaco, Sena Madureira. Acre.
Mas a alegria durou pouco. Em 31 de março de 1964 os militares deram o golpe demovendo Jango, Brizola e outras lideranças civis do Poder, oficializando a Ditadura. Todas as liberdades foram suprimidas, os trabalhadores e os jovens conscientes se tornaram suspeitos.

Na pensão de dona Osmira no bairro da Floresta, onde eu fazia as refeições, fomos surpreendidos durante o almoço por soldados e agentes do DOPS armados de metralhadora. Todos com as mãos pra cima, encostadas na parede.

Sustos como esse viraram rotina e os sonhos deram lugar à indignação. Timidamente, comecei a me envolver com pessoas que percebiam a anormalidade e se dispunham lutar contra ela. Essa compreensão me veio através dos versos de João Cabral de Melo Neto em “Morte e Vida Severina”: “Muita diferença faz/ entre lutar com as mãos/ ou abandoná-las para trás”. O artista plástico, o critico de cinema e mais tarde o tecnólogo em Química Industrial (curso que aceitei fazer para ter direito a uma bolsa da Sudam) foram aos poucos pro espaço. Sobrou um militante desajeitado, mas disposto a correr riscos.

E nada mais de eleições, e nada mais de liberdade, e nada mais de cidadania. Em 1969, o líder estudantil João Alberto Capiberibe (que foi governador e senador do Amapá nos anos 1990), com atuação no Pará e no Amapá, apareceu em BH arrebanhando pessoas para a luta armada. Tinha conversado com Carlos Marighela, dirigente da ALN (Aliança Libertadora Nacional) em São Paulo, e recebido a missão de ajudar a montar um núcleo de guerrilha no Pará. Eu e o Tito Guimarães Filho, colega de trabalho na Rádio Tiradentes, topamos e saímos os três sem lenço e sem documento, de ônibus, para Belém. Ficamos instalados num “aparelho” no bairro do Marco.

Lá, em contato com outros militantes demonstrei minha insegurança, manifestei discordância e terminei por ser excluído do grupo. Viajei para o Amapá que também acolheu, alguns dias depois, o Tito Guimarães, que tentou antecipar a guerrilha requisitando 100 burros para trabalhadores rurais de São José do Capim e se deu mal. Com a ajuda do padre italiano de esquerda, Caetano Maiello, assumimos a editoria do semanário A Voz Católica e programas na Rádio Educadora, ambos da Prelazia de Macapá. Na Rádio chegamos a produzir o programa “Alguma Coisa Antes que Anoiteça”, diariamente, a partir das 17h30, ensinando princípios marxistas. Mas outro padre nos descobriu e nos afastou do projeto.

Só tivemos tempo de registrar, na capa de A Voz Católica, nossa indignação diante do assassinato de Carlos Marighela pelos militares, em São Paulo, em 1969: “Morreu um grande brasileiro. Assassinado”! E vieram as prisões; do Capiberibe e sua companheira Janete quando tentavam escapar do cerco numa estrada do Maranhão; a do Tito em Belém; e a minha própria, em Macapá com transferência para Belém. Tito foi levado para o Rio Grande do Sul onde ficou preso incomunicável. Capiberibe conseguiu fugir do presídio São José, de Belém, e exilou-se no Chile com a família.

Eu vivi mais tempo cinzento, com liberdade vigiada e sem sonhos. Com mulher e um casal de filhos fui trabalhar como químico de uma indústria de Laticínios em Belém. Em 1974 tive uma recaída: larguei o Lacticínio e me tornei artesão fazendo entalhes em madeira. A barra pesou e voltei ao jornalismo alternativo, até ser contratado, em 1975, pelo jornal O Estado de S. Paulo, primeiro como correspondente no Amapá, depois como repórter regional baseado no Acre, por indicação do jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, editor do Jornal Pessoal.

Aqui, a partir de 1975 retomei o ânimo no jornal Varadouro e em outras lutas acreanas. E após 30 anos de abstinência, votei novamente para Presidente da República: em 1990 no Lula, mas deu Collor de Mello; em 1994 e 1998, novamente no Lula, mas deu FHC; em 2002 e 2006, finalmente, Lula começou a dar certo.
Agora tenho como opção para Presidente quatro candidatos com perfis de esquerda. O José Serra (PSDB) eu descarto, por seu elitismo paulistano. O Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) também descarto, com todo respeito, porque cansei do radicalismo sonhador. A Marina Silva (PV), sobre quem registrei na apresentação do livro “Amapá - Um Norte para o Brasil” que “faz política com a linguagem dos anjos”, deixo sob a responsabilidade dos mais jovens e mais sonhadores (e menos ateus) que eu.

Fico com a Dilma, presa e torturada pelos militares de 1964, porque essa dor eu conheço bem e sei que deve ser honrada. Também porque ela serve ao Projeto Acre ao qual estou entregue de corpo e alma, e ao qual Lula, seu padrinho político está envolvido desde 1978. Desejo um Acre livre dos destruidores de florestas e dos vis amantes do dinheiro.

Um comentário:

  1. Élson,

    Faltando poucos dias para o segundo turno das eleições para presidente (por obra e graça de dona Marina Silva,cada vez menos acreana e mais paulista, sem rumo, sem identidade e sem destino), voto na Dilma, porque ela faz parte do meu projeto Brasil iniciado com o Lula.
    Um braço,
    José Maria

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