sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Amazônia precisa de cientistas


Ao abrir, na manhã de segunda-feira (18) em Rio Branco, Acre, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, o cientista Ennio Candotti, presidente de Honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) criticou e ironizou o Ministério de Ciência e Tecnologia, o CNPq e outros órgãos responsáveis pelo desenvolvimento científico e tecnológico da Amazônia. Ele disse que “ não haverá paz nem sustentabilidade enquanto não se questionar os modos atuais de intervenção na natureza”.

Ao responder à pergunta da platéia - constituída, principalmente, de estudantes de níveis médio e universitário, - sobre o que fazer se os órgãos de ciência continuam com olhar torto para a Amazônia, Candotti, que é biólogo e atualmente comanda experiência de vanguarda no Museu da Amazônia (MUSA), de Manaus, respondeu com ironia: “ Talvez tenhamos que pressionar com tanques de guerra”!

O cientista declarou ser imprescindível que planejadores e pesquisadores aprendam a conciliar o conhecimento científico com o conhecimento dos que vivem na floresta; do contrário, os programas de desenvolvimento regional com o rótulo da sustentabilidade se limitarão a retirar da região, de forma sempre predadora, apenas o que já é conhecido dos mercados.

Ennio Candotti recomendou aos jovens que sejam curiosos e não aceitem qualquer proposta de desenvolvimento para a Amazônia. Ilustrou sua preocupação informando que em Coari, no Estado Amazonas, a Petrobrás explora petróleo, mas a 10 quilômetros de lá tem uma aldeia indígena que vive na extrema miséria. “ A ciência - enfatizou, - não fará sentido se não ajudar acabar com a miséria humana”.

Os futuros cientistas, segundo Ennio Candotti, deverão aprender a conversar com as formigas e as onças se quiserem entender de verdade a Amazônia. As formigas, explicou, não têm celular nem GPS, mas se comunicam em rede e se juntam com incrível rapidez para carregar migalhas de pão deixadas sobre uma mesa. Esta é uma ciência que os que vivem na floresta parecem mais próximos de entender, embora enfrentando discriminação e ceticismo dos acadêmicos.

A índia Taiza, de 12 anos, do grupo indígena a Saterê Awé, sofreu constrangimento numa escola amazonense de não-índios por declarar numa redação que gostaria de ser “ farinheira” . Os professores e alunos riram e debocharam dela que, entretanto, tinha argumento forte: queria aprender a fazer farinha para não deixar que os membros de sua tribo viessem a passar fome. “ Saber fazer” , inclusive farinha é muito importante, disse o cientista, e ser “ farinheira” de profissão também.

A riqueza gerada na Amazônia pode ser enorme e socialmente justa, desde que a região não seja explorada como depósito de coisas conhecidas dos mercados. Que não tenha que vender preferencialmente petróleo, madeira (mesmo certificada) ou Carbono (porque está na moda). “ Não é possível que uma floresta que tem uma diversificada e rica microbiologia não tenha produtos mais interessantes a oferecer” – disse Candotti, exemplificando: “ Só o veneno de uma aranha vale mais que todo as árvores existentes em 1 hectare da floresta” . Os óleos e as informações que estão la no meio da floresta valem milhões de dólares.

Entretanto, a regiâo precisa contar com pesquisa científica e com tecnologia. O ideal, segundo Candotti, é que 300 a 400 mil cientistas pudessem estar pesquisando cada quilômetro quadrado da região, na atualidade. “ E as instituições de pesquisa, bem como os órgãos de planejamento não podem continuar subestimando o conhecimento dos que vivem na floresta”.

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