segunda-feira, 29 de junho de 2009

Uakti: música tirada do vento

Natália Jung

Músicos excelentes, ins­trumentos altamente ins­tigadores, muita criati­vidade e sensibilidade formam o grupo mineiro Uakti, personagem de uma lenda amazônica materia­lizado por Arthur Andrés, Décio Ramos, Paulo Santos e Marco An­tônio Guimarães, fundador do gru­po e principal idealizador dos ins­trumentos simples e exóticos que tornam Uakti referência mundial na música instrumental.
Os três músicos passaram 15 dias em Rio Branco, dando uma ofi­cina de música instrumental aos alu­nos dos cursos de música, teatro e artes plásticas da Usina de Arte João Donato, auxiliados por João, assis­tente do grupo.
O Uakti existe há 30 anos, tendo gravado 11 CDs e 1 DVD neste pe­ríodo, e participado do trabalho de diversos outros artistas consagrados como Milton Nascimento e Philip Glass, em trilhas sonoras para balés e filmes, sendo o trabalho mais re­cente a trilha do longa Ensaio sobre a Cegueira de Fernando Meirelles.
Com este currículo dá para no­tar que não estão aqui para brinca­deira. São músicos compenetrados que passam além de didática especí­fica para o estudo rítmico, uma no­ção de concentração e envolvimento com a música, além do respeito com os instrumentos. Estes, por sua vez, são de tirar o fôlego de qualquer um. Por menor conhecimento musical que se tenha, é impossível não se ad­mirar com a sonoridade produzida a partir de tubos de PVC afinados pa­ra serem batidos, assoprados, toca­dos com a mão ou pedaços de bor­racha encapados com meia soquete. Para não falar das marimbas de vi­dro e madeira que podem levar seus ouvintes aos recantos mais inusita­dos de sua imaginação, tamanha a transcendência alcançada pela sen­sível sonoridade produzida pelas te­clas nas mãos de seus tocadores.
Nem por isso, este trio de virtu­oses é sisudo e esnobe. Com gran­de humildade e graciosidade, en­sinaram os oficineiros a ler as fi­guras geométricas, que são um ti­po de partitura rítmica criada por eles, através de dinâmicas e brin­cadeiras, levando todos às garga­lhadas inúmeras vezes. Com cerca de 50 participantes na oficina, em sua maioria não músicos, Décio co­menta que este público sempre re­cebe muito bem a proposta, pois acredita que a música está em todas as coisas, basta sabermos lê-la.
E assim foi feito: no Teatro Plá­cido de Castro, logo nos primeiros dias de oficina, os alunos fizeram música a partir das poltronas, por­tas, janelas e escadas. “O resultado é muito bom, porque a pessoa não tem nenhum tipo de vício, está fres­quinha, pura, recebe e entende fa­cilmente tudo aquilo que é propos­to. Geralmente estas pessoas, como a gente trabalhou aqui, com pes­soas que nem todas são da área de música, têm idéias muito boas, que se tornam idéias musicais e que so­am muito bem”, observa Décio.
E sobre estar pela primeira vez no Acre, Paulo comenta: “foi uma grata surpresa, pelo que a gente es­perava do Acre, pois a gente tem sempre uma visão meio distante, meio indígena e a gente encontra uma cidade super-estruturada, com pessoas de várias partes do Brasil a fim de trabalhar; e pra gente isso é muito bom, pois viemos fazer um trabalho que teoricamente poucas pessoas conhecem. Mas, na verda­de tem um público aqui que quer vi­venciar isso, que quer fazer um tra­balho bom e passar pra frente esta nossa didática, o que é muito legal. É uma coisa que a gente sentiu bem surpreendente, muito agradável. Foi muito além da expectativa”


O show

Fechando sua pro­gramação no Acre, o grupo Uakti se apresenta neste fim de sema­na (16 e 17) no Teatro Plácido de Castro, a partir das 21 horas. O re­pertório foi composto para um ba­lé do também mineiro Grupo Cor­po, mas no show as músicas es­tão adaptadas para a performance dos instrumentistas com seus ins­trumentos. “Nós temos vários re­pertórios, mas este show é para um primeiro contato, onde toca­mos uma variedade grande de ins­trumentos. O Uakti tem esta nu­ance em seus repertórios, de apre­sentar os instrumentos e mostrar que é possível tocar coisas muito simples e fazer música com aqui­lo”, comenta Paulo.

A lenda

O nome UAKTI de­riva de uma lenda indígena dos ín­dios Tukano do Alto Rio Negro, Estado do Amazonas, como des­creve Elza Camêu, estudiosa da música indígena brasileira:
“Os estudo de E. Bianca sobre os índios do rio Tiquiê, (afluente do Alto Rio Negro) revela mais um aspecto da criação de ins­trumentos. Uma lenda, referen­te ao herói Uakti, desses índios, diz que ele violava e pervertia as mulheres, por isso foi capturado. Era um monstro de formas hu­manas, horrendo e tendo o cor­po aberto em buracos. O vento, ao atravessar-lhe o corpo, pro­duzia sons soturnos e lúgubres. Uakti foi morto e sepultado. No lugar em que o enterraram nas­ceram três palmeiras altas, que passaram a guardar o grande es­pírito de Uakti. Desde então, os instrumentos de Uakti são feitos do caule dessa palmeira. O tim­bre dos instrumentos correspon­de aos sons tirados pelo vento ao passar pelo corpo esburacado de Uakti. E em razão do comporta­mento de Uakti, as mulheres que vissem ou ouvissem o som dos instrumentos ficariam imundas. Por isso, se uma coisa dessas acontece, a mulher teria ou terá que fatalmente ser sacrificada”.

O fim é o começo

O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, conheceu o Uakti em 1966, ficou encantado e escreveu o texto a seguir que está na apre­sentação do CD 21 lançado em 1997:

Metade Deus. Metade Diabo. Na exata e mineira medida, como é a vida. Num único espaço e tempo estão juntos porque necessaria­mente diferentes, e necessários um ao outro: não há vida sem morte, prazer sem dor, sim sem não, princípio sem fim, agudo sem grave, veloz sem lento, grande sem pequeno. Deus sem Diabo. Tudo é me­tade e o contrário da outra parte, diferente para fazer a unidade do que é contrário. Foi escutando o Uakti que aprendi o que sempre me recusei a aceitar: que todo diferente é, no fundo, parte de um mes­mo igual. ‘Yin’ e ‘Yang’. Deus e o Diabo, num empate aceito pelos dois, eis o mistério. Negado em todas as partes, mas não em Minas Gerais, onde o empate é reconhecido no se, no talvez, no não sei se sim ou se não, na indefinição que define todo o saber e fazer.
Em Minas o normal é o empate. O desempate é puramente pro­visório. Minas Gerais, estado particular e único do Brasil. Central, no meio de tudo, com extremos, mas sem se definir. Um lugar onde a vida e a morte conversam todo o tempo sem se despedir. Terra de Milton Nascimento, de João Guimarães Rosa e do Uakti, sem mar, mas com imensidão. Terra onde a liberdade foi esquartejada na In­confidência Mineira de Tiradentes no século 18, mas permanece de corpo inteiro. O lugar onde a liberdade dura ainda que tardia. En­fim, o mistério.
Foi lá que nasceu o Uakti e só poderia ser. Quatro anjos verti­dos em demônios entraram na música e fizeram uma grande filoso­fia pela via das notas, do estalo, do contraste, do espanto, da doçura e da violência sem limites do som que ultrapassa todas as barreiras. Transcenderam o tempo e o espaço, reescreveram Einstein por cima de toda relatividade. Foram tão acima de tudo que tiveram que in­ventar até os instrumentos. E inventaram como Deus fez no come­ço e o Diabo ajudou.
Deus inventou a humanidade, o Uakti inventou o instrumento da música. Não se pode entender o Uakti sem se levar esse choque do totalmente Deus e totalmente Diabo, uma coisa que todo minei­ro entende e aqueles que podem praticam.
O fim do mundo está no começo. E o Uakti é esse Verbo.

Vale a dica

Entre os 11 álbuns do grupo, Águas da Ama­zônia se destaca por es­ta particularidade: tem inspiração em nossos rios, foi composto por Philip Glass para o es­petáculo “Sete ou oito peças para um ballet” do Grupo Corpo, e in­terpretado pelo Uakti. As músicas recebem nomes dos rios da re­gião, como “Xingu River” e “Purus Ri­ver”, sugerindo cor­redeiras e redemoi­nhos que revelam a linguagem (ou alma) da cada um. O álbum custa 20 reais.

*publicado no Jornal Página 20 em 17/05/2009

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